
Apelido que nasceu de provocações na infância chama atenção para a importância do acolhimento familiar e do respeito na formação de crianças e adolescentes
O mundo conheceu Vozinha pelas defesas com a camisa da seleção de Cabo Verde na Copa do Mundo de 2026. Mas, muito antes de chegar ao futebol profissional, Josimar José Évora Dias era apenas um menino que jogava bola nas ruas da ilha de São Vicente e encontrava nos avós o acolhimento de que precisava depois das partidas.
Criado pelos avós, o futuro goleiro costumava jogar com garotos mais velhos. Competitivo, não gostava de perder e, quando saía machucado ou frustrado, voltava para casa contrariado. Os colegas passaram a provocá-lo, dizendo que ele iria reclamar com os avós. Foi assim que surgiu o apelido Vozinha, do qual ele não gostava quando era criança.
Anos depois, ao iniciar sua trajetória profissional em Angola, encontrou outro goleiro chamado Josimar no elenco e decidiu adotar o apelido pelo qual já era conhecido em Cabo Verde.
A história ganhou repercussão durante a Copa do Mundo, mas também oferece uma oportunidade de reflexão sobre situações que continuam presentes no cotidiano de crianças e adolescentes: quando uma brincadeira deixa de ser divertida para todos e passa a constranger, humilhar ou excluir alguém?
O bullying também pode acontecer dentro do esporte
Apelidos, comentários sobre o desempenho, provocações após uma derrota e brincadeiras relacionadas às características de uma criança podem parecer inofensivos para quem os pratica. Para quem recebe, porém, essas situações podem transformar um ambiente de convivência em um espaço de insegurança.
No esporte escolar, a atenção precisa ser ainda maior. É durante a infância e a adolescência que muitos estudantes estão descobrindo suas habilidades, aprendendo a lidar com frustrações e construindo relações com os colegas.
Uma criança que erra uma jogada, perde uma partida ou apresenta dificuldades em determinada modalidade não pode ser reduzida a esse momento.
A Federação Alagoana de Esportes Colegiais (FAEC) destaca a importância de ambientes esportivos nos quais o respeito faça parte da formação dos estudantes-atletas, dentro e fora das competições.
Professores, treinadores, dirigentes e familiares têm papel fundamental na identificação de comportamentos que ultrapassam os limites da brincadeira. Intervir diante de situações de humilhação, orientar os estudantes e estimular relações respeitosas são atitudes necessárias para que todos tenham condições de participar.
O acolhimento também faz parte da formação esportiva
Na história de Vozinha, a presença dos avós ocupa um lugar especial. Eram eles que o recebiam quando voltava para casa depois das partidas e acompanhavam seus primeiros passos no futebol.
Essa relação chama atenção para uma dimensão importante do desenvolvimento esportivo: crianças e adolescentes precisam encontrar apoio também quando as coisas não acontecem como esperavam.
O incentivo da família não se resume a acompanhar vitórias ou comemorar medalhas. Ele aparece na conversa depois de uma derrota, no respeito ao tempo de aprendizagem e na disposição para ouvir quando o estudante relata uma situação desconfortável.
Da mesma forma, o papel dos profissionais que acompanham os jovens atletas vai além do ensino das técnicas de uma modalidade. É preciso observar as relações entre os estudantes e garantir que a competitividade não seja confundida com autorização para constranger o outro.
O esporte oferece oportunidades de convivência, cooperação, disciplina e respeito às diferenças. Para que essas experiências aconteçam, o ambiente precisa permitir que cada estudante participe sem medo de ser ridicularizado.
Nenhuma conquista justifica o sofrimento de uma criança
O fato de Vozinha ter construído uma carreira no futebol e transformado o antigo apelido em sua identidade esportiva não significa que as provocações tenham sido necessárias para sua trajetória.
Sua história não deve ser interpretada como uma defesa da ideia de que o bullying fortalece crianças ou produz campeões. O que merece destaque é a importância das pessoas que estiveram ao seu lado durante a infância e a necessidade de oferecer esse mesmo acolhimento aos estudantes que hoje estão começando no esporte.
Antes mesmo de cobrar resultados, é preciso garantir que crianças e adolescentes encontrem nas quadras, nos campos e nos tatames um ambiente em que possam aprender, errar, tentar novamente e se sentir parte do grupo.